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“Que termos proferiste, Adão severo!
Imputas-me (lhe diz arrebatada)
De minha ausência o ardor, que assim lhe chamas?!
E... quem sabe se o mal a ambos ferira,
Se me eu não fosse, ou mesmo a ti somente?
Aqui ou lá se a tentação tu visses,
Não discerniras fraude na serpente
Ouvindo-a discorrer como discorre.
Fundamento nenhum de inimizade
Podia entre ela e nós haver-se visto:
Logo, por que motivo ela buscara
Ocasiões de fazer-me ofensa ou dano?
De teu lado sair nunca eu devera?
Não mais fora isso do que eu ser como antes
Costela tua sem vontade própria!
E tu, de chefe meu na qualidade,
Por que com mando de absoluto efeito
Não me ordenaste que dali não fosse...
Sabendo tu que iria expor-me a danos?!
Em tua oposição tu fraquejaste,
E nímio fácil afinal me deste
Licença, aprovação, com rosto afável:
Se nessa oposição tu mantivesses
Carácter firme, decisão constante, —
Nem eu, nem tu, teríamos pecado!”
Iroso a vez primeira, Adão lhe torna:
“Amas-me assim, de meu amor extremo
Assim me recompensas, Eva ingrata?!
Não to expressei de indubitável modo
Quando, perdida tu, inda eu podendo
Gozar da vida e de imortal ventura,
A tudo preferi morrer contigo’?
E tua transgressão lanças-me em rosto?!
Decisão assumir, firme caráter
Não soube, dizes tu, em reprimir-te:
Mais do que fiz... o que fazer pudera?
Baldei contigo admoestações, avisos...
Predisse-te as ciladas perigosas
Do imigo solapado... e não me ouviste.
Mais que isto fora praticar violência,
E violência é absurdo repugnante
Co’os altos foros de vontade livre.
Confiança plena em ti havias posto:
Crias que mal algum se te atrevesse,
Ou ter matéria de provança ilustre!
Também talvez então já eu errasse
Por admirar demais o que em teu porte
Me parecia tão perfeito a ponto
De crer que ao mal inacessível eras!
Mas pesa-me desse erro, hoje, tornado
Em crime atroz... E tu dele me acusas!...
Ver-se-á acontecer o mesmo sempre
Ao que, no tino da mulher confiando,
Deixe prevalecê-la em seu capricho.
Do esposo repressões ela rejeita:
E, se ele a deixa coa vontade livre
E de tal indulgência o mal resulta,
Ela, a primeira, a frouxidão lhe increpa!”
